Fernando Machado lê carta enviada por detento no programa Hip Hop Roots: “Isso ajuda a enfrentar a barra lá dentro”
Comunidade
Um salve geral para Fernandinho do Morro
Programa em rádio comunitária facilita
contato entre presos e seus familiares. Mensagens ao vivo e cartas
estreitam laços separados pelas grades
Publicado em 16/12/2012
Com
a grande corrente de ouro balançando no pescoço, ele sai da Rádio
Comunitária Cidade Industrial, passa rapidamente em frente à UPS da Vila
Verde e logo é descoberto: “Fernandinho! Manda um salve pra mim!”,
grita uma moça que carrega seu bebê e anda com calma pela Rua Beato
Pedro Donders, na Cidade Industrial de Curitiba. Ali, Fernandinho do
Morro é o cara. Reconhecido e admirado por toda a gente, porém, ele é
tão ou mais lembrado por quem está momentaneamente invisível, atrás das
grades. FM 98,3
Na Rádio Comunitária Cidade Industrial FM, a mais ouvida da Vila Verde, ainda trabalham mais sete pessoas. Entre elas Mônica Felippe, programadora e esposa de Fernandinho; Freddy Pinheiro, “repórter de rua” e vencedor do Prêmio Sangue Novo de Jornalismo, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, no ano de 2009, com o programa Raízes do Rap; e Ney Lopes, vice-presidente da rádio e fã do Hip Hop Roots. “A interação com as famílias é o melhor”, diz Ney. Provando que nada é por acaso, o slogan da rádio é “Primeiro Lugar no Coração da Cidade”.
André Rodrigues/ Gazeta do Povo
Ampliar imagem
Fernandinho e a galera da rádio: donos do pedaço na Vila Verde
A frequência 98,3 FM provavelmente é a mais conhecida nas penitenciárias do Paraná. Os presidiários ouvem seus familiares por meio de um rádio colocado no corredor, no meio das celas. “Isso ajuda a enfrentar toda a situação lá dentro”, garante Fernandinho, nascido no “morro” do Sabará.
Com o sucesso do programa, o caminho de volta começou a acontecer. Cartas escritas pelos presos, que passam primeiramente pela censura das penitenciárias, são enviadas até a rádio por meio do projeto Carta Social, dos Correios. Cerca de 20 chegam por semana até as mãos de Fernandinho. Ele lê uma por uma. “Começou lá no 11.º Distrito [Policial], em 2009. A gente fez uma caixinha e os presos colocaram suas cartas. Isso com certeza ajuda no comportamento do preso lá dentro”, diz esse paranaense de Campo Mourão, que é ex-detento, mas não gosta muito de falar da experiência atrás das grades. “Não paro de chorar, vou usar os óculos agora”, justifica. Ele não ganha por seu programa na rádio e trabalha carregando e descarregando caminhões.
É só uma fase
As cartas que chegam quase sempre começam com um “salve”. Os nomes dos presos viram apelidos como Bola, Shampoo, “Pexe”, Leno e Paulista. Nas mensagens, brincadeiras com os companheiros de celas, menções à família, clamorosos pedidos por advogados e por CDs de grupos de rap. No final de algumas cartas, há frases em letras estilizadas que de certa forma resumem a permanência naquele mundo, como “O tempo ruim vai passar, é só uma fase”, “Quem inventou as grades não sabe a dor da saudade”, e “Sobrevivendo no inferno”.
“Quando cortam o rádio é porque algum problema está piando”
O filho de Renato Régio, 53 anos, ficou detido na Casa de Custódia de Curitiba por pouco mais de quatro anos. O programa de Fernandinho do Morro foi descoberto logo depois que o filho, então com 21 anos, deu entrada no presídio. “É a maneira que tínhamos de nos comunicar com ele, que vivia ansioso por causa do andamento do processo”, conta Renato. Hoje ele não liga mais para Fernandinho, já que o filho saiu da penitenciária. Mas lembra com detalhes daquele tempo.
“Eu ligava e o Fernandinho atendia. Ele colocava uma música doida, mas isso nem importava. Eu queria era falar com meu filho e saber que ele estava ouvindo.” Fernandinho do Morro recebe ligações de várias regiões de Curitiba – “até do Batel”, diz –, de cidades do interior e também de outros estados.
A comunicação através do rádio e das cartas também serve de termômetro sobre a quantas anda a situação no presídio. Quando o filho não recebia a carta na semana seguinte comentando sobre o seu telefonema, lembra Renato, algo estava errado. “Se estão ouvindo o rádio, é sinal de que está tudo bem. Quando cortam, é porque algum problema está piando”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário